repalíndromo

sobre o palíndromo algo vago de ontem, consegui fechá-lo deste modo

A TORRE DO ÓDIO DÓRIA JOGA MAGO JAIR O DOIDO O DERROTA

palíndromo

Consegui, hoje, este palíndromo:

A TORRE DO ÓDIO DÓRIA JAIR O DOIDO O DERROTA

Que pode ser resumido neste:

A TORRE DÓRIA JAIR O DERROTA

Como sempre, ou quase, nem sempre se depreende o significado de um palíndromo, já que este é, principalmente, nesta ordem de realização: nível morfológico – gráfico ou (nem sempre…) ortográfico; nível sintático – de construção nem sempre fluida; e, finalmente, semântico – e aqui o suíno fêmea espirala a cauda, quer dizer, o(s) possível(veis) significado(s) fica(m) à espreita de nossa decodificação. Quer dizer, freudianamente dizendo, nas palavras projetamos nossos conteúdos inconscientes. Quer dizer: lemo-los como os podemos ler. Palavras demais, significados demenciais.

Finalizando com o Leminski:

tudo dito

nada feito

fito e deito

ignorância e má-fé

I

Levei algum tempo para entender o que desde muito doutrinadores diziam: o inferno está cheio de pessoas bem intencionadas. Na minha ignorância, não entendia que a asserção se referia, justamente, à ignorância. Esta, mesmo fecundada de boas intenções, raramente produz bons frutos.

Esta reflexão toda decorreu de notícia vista na tv, de que um dado cidadão, querendo engajar-se no combate ao vírus sem nacionalidade, “fabricou” um álcool em gel. Na fórmula, pelo visto bem intencionada, misturou gel lubrificante, álcool combustível de automóvel e, vejam só, água de vaso sanitário. Quer dizer: gel, álcool e água “sanitária” estavam presentes, pelo menos no que se refere à intuição/ignorância verbal do rapaz.

O indivíduo não parecia mal-intencionado; ignorante, porém, e algo oportunista, sim. Entretanto, tivesse conseguido seu intento… quanto dano! Quer dizer: um ignorante, bem intencionado, cheio de iniciativa. Fico imaginando se se tratasse de um indivíduo lúcido, mal-intencionado e, pois, cheio de iniciativa. Não é um filme já visto algures e alhures?

neologismo

neologismo

Missionário, ora santânico, ora satânico, foi embora enforcar outra nos sagrados laços.

A (des)autoria do poema

Outro dia estava lendo um poema do Delores Pires. Belo em sua habitual singeleza, não obstante (e talvez nem por isso mesmo) a forma do soneto. Enquanto lia era tomado pelo límpido encanto de despretensiosos versos. Poetando, grato encanto do grácil canto. Eis o poema:

Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola…

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente…
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…

Lido o texto, fiquei alguns segundos assimilando, metabolizando, curtindo, mesmo. Reli. Terminada a releitura, li a referência embaixo e abaixo:

(QUINTANA, Mario. A rua dos cataventos. “In” Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 90) – Imagens: Google.

No primeiríssimo instante levei um choque, que, antes mesmo de se tornar desagradável, nem sequer me permitiu um naco de desagradabilidade. Era do Quintana…!, meu amado Mário… Entre mim e os poetas, fiqueimos entrefelizes, pelo menos de minha parte. E me lembrei que, no poema, você precisa ser poeta junto com o poeta para bem ler o poema seu/dele. Tratava-se, mesmo, da questão da (des)autoria do poema, que uma vez me ocorrera quando uma colega das letras e palavras me pediu lhe corroborasse a afirmação de que o poeta Vinícius de Moraes, sendo carioca, deveria ser lido com o característico sotaque, ao que lhe respondi: o poeta deve ser lido com o sotaque do próprio leitor.

tijolos de espuma

palavras

tijolos de espuma

haverá alguma que a minha vida resuma?

Quem viver verá: haverá aquela uma

que quando desta embora eu vá

não deixe amarela a minha vida ora de aquarela…

atitude

atitude é tudo o que resta

quando nada mais resta aquém de tudo o que se esfuma

na única razão de não ter razão nenhuma

Falência da falas

entre a corte e o corte

a vale e o vale

o amor e a morte

– à mídia comídia de erros

nada mais resta

a não ser

ser honesta…

programação

p

– Não seja galinha como a sua mãe – ameaçava sempre a faminta voz do pai à garotinha, hoje de programa.