em busca do palíndromo perfeito

Desta vez consegui, acho, um palíndromo perfeito, que consegue articular com precisão quase litúrgica os quatro estratos linguísticos, quais sejam, morfológico, sintático, semântico e estético, embora este último não se restrinja tão-somente à linguagem verbal. Assim, sinto-me, hoje e agora, satisfeito em postar este “singelo” e “sin hielo” palíndromo:

ARTE LAICA SAI DE DADA FASE DA LUA AULA DE SAFADA DE DIA SACIA LETRA

Observe-se, também, que a inversão, do centro para a periferia, “diminui” o palíndromo, que assim fica (ficaria):
AULA DE SAFADA DE DIA SACIA LETRA ARTE LAICA SAI DE DADA FASE DA LUA

em que a inversão do sujeito, “arte laica” do primeiro, para “aula de safada” do segundo, relativiza a arte pela valorização da aula, quer dizer, substantivo por substantivo, um mais abstrato por um mais concreto, mais duro e menos escuro. No poema, o futuro a eu pertenço. Polemizemos e poemizemos. That is all folks… Por hoje pelo menos.

pálido palíndromo

Quem me segue sabe que um de meus passatempos favoritos é “descobrir” palíndromos. Digo descobrir porque creio que tantos quantos se dediquem a esse folguedo acabarão, cedo ou tarde, “tropeçando” nos mesmos palíndromos, já que esses objetos verbais são, por força de seus limites morfológicos e sintáticos, bastante escassos. Para quem não sabe, o palíndromo é uma curiosidade verbal, uma composição lexical que pode ser lida de frente pra trás e de trás pra frente. E, “terminado” o palíndromo, vai-se, então e só então, verificar o(s) significado(s) que ele pode propiciar, suscitar, etc. Coloquei aspas em “terminado” porque todo palíndromo é potencialmente aumentável, no jogo entre os estratos morfológico, sintático e semântico. Pode, portanto, ser melhorado. Sempre. Etc.

Creio, ainda, que ninguém faz um palíndromo, mas se apropria de um pré-existente. E assim por diante. E a única posse que alguém talvez possa reivindicar residiria na possível originalidade de uma leitura insuspeita. Assim, conseguiu-se em mim revelar-se o seguinte palíndromo. A plasticidade das possibilidades de pontuação afetarão as possíveis leituras, razão pela qual escrevemos em maiúsculas e sem pontuação. Quem quiser, que se divirta. Ei-lo:

MEGA AGE MAGO TARÔ CEDO LEDO MORO MOEDA COME DE MÁ GOTA TANGA MAGRA LARGA MAGNA TESE SAFADA RIPA RÉ DANO ZANGA MAS O DILETO MORO CEDE A MAGNA TOGA MAS SE A SACANA FUMEGAR RABO BARRAGEM UFANA CASA ESSA MAGO TANGA MÃE DECORO MOTEL IDOSA MAGNA ZONA DERA PIRADA FASE SE TANGA MAGRA LARGA MAGNATA TOGA ME DEMO CADE O MORO MODELO DECORA TOGA MEGA AGEM

Pois é: poesia; ou concisão – com cisão

O poema encerra um paradoxo: o da (dis)tensão entre a inexorável concisão que lhe é intrínseca e a necessária verbosidade com que se nos obrigam as referências extrínsecas que lhe fazemos. Quer dizer: concisão interna versus prolixidade externa. Prolixamente, a coisa não é bem assim. Afinal, o próprio poema prescinde das trocentas barulhentas palavrosidades com que se o tratamos. Prolixo, não?

Pois é: poema, o título que recolhemos a algum(a) poeta(isa) ou poeta(a), esta última referência em referência a tantas poetisas que se querem (se dizem) poetas, menos por questão de gênero, mais atual, do que por questão de posicionamento verbi-voco (e quiçá visual), thanks to Décio Pignatari, dictum signatari.

Mas o gosto do poeta é tão somente o de gostar. Gostar de dizer; gostar de di-ser: fundir sujeito e objeto, outrizando-se em si mesmo e mesmizando-se no outro. Achar novas formas de dizer coisas antigas e velhas formas de dizer coisas novas, dizer o óbvio de modo inóbvio e o inóbvio de modo óbvio, obviamente.

Obviamente? Será? Seria? Sei lá, entende? Entende o quê? Nem mesmo eu mesmo entendo. Já disse o Leminski: entendo, mas não entendo o que estou entendendo.

Finalizando o que estou analisando, o mais importante é que com o verbo/verso vergo o sentido e sinto o ver. Pois: só sentir faz sentido/ sentido faz sentir/só.

Tenho sentido.

SOLDADANIA

s

Com a eleição do capitão Jair Bolsonaro a cidadania talvez assuma foros de soldadania. O neologismo que aqui propomos não deixa de ter lá algo de tendencioso, desde que a fusão de cidadania com soldado guarda lá uma tensão de significados, se entendermos que cidadania é expressão da democracia e a função do militar é, em última instância, pela preservação da soberania nacional, assegurar a relação de poder entre o Poder e a Cidadania.

Por oportuno, Houaiss registra, no verbete cidadania: condição de pessoa que, como membro de um Estado, se acha no gozo de direitos que lhe permitem participar da vida política.

Como se vê, o dicionarista atrela a esse termo, implicitamente, a noção de democracia, que, ainda segundo ele, significa: 1 governo em que o povo exerce a soberania; 2 sistema político em que os cidadãos elegem os seus dirigentes por meio de eleições periódicas;

E o problema está, como se pode depreender, na terceira acepção de cidadania, assim consignada por Houaiss: 3 regime em que há liberdade de associação e de expressão e no qual não existem distinções ou privilégios de classe hereditários ou arbitrários. Esta acepção contrasta com a expressão alhures cunhada que, ironizando, menciona “cidadão de segunda classe”, a ideia de que “uns são mais iguais que outros”, o descompasso que existe entre lei e justiça, e assim por diante.

Mensagens e rotulagens, ideologias, fraseologias e outras logias, Bakhtin já demonstrou que a palavra é ideológica. Assim, designar alguém de herói ou vilão não é muito mais que uma questão de enfoque ideológico, a nos lembrarmos de que, à guisa de exemplo, etimologicamente, cidadão significava o morador da cidade, e vilão, o morador da vila, havendo, ainda, quem relacione o substantivo vilão ao adjetivo velhaco.

Finalizemos com Pessoa, reverbado e reverberado por Veloso: minha pátria é minha língua. Esteja dito.

ostra feliz

ostra feliz…

Outro dia senti-me quase ultrajado em minhas convicções ao ler, num texto que me chegara às mãos por incumbência de minha profissão, esta pérola: ostra feliz não produz pérola. O texto mencionava o autor da frase: Ruben Alves.

Ainda injuriado, fui trocar umas ideias com um amigo, que, pela conversa, concordava com o autor da frase. E eu repliquei, afirmando que, corrigida a frase, melhor ficaria: ostra saudável não produz pérola. O texto que originara a discussão fazia um uso bastante ideológico da frase, numa visão bastante limitadora e avessa à tal da expressão “zona de conforto”, que, me parece, não se pode confundir com a que proponho em resposta a esta, ou seja, zona de acomodação, esta, sim, incomodativa.

Mas, para metabolizar minha indignação, fui pesquisar, e descobri, para alívio meu, que o autor da frase não era cretino, cheio de má-fé, com discernimento duvidoso e mente deturpada por interesses escusos. Ruben Alves estava se referindo a si mesmo, à condição de que o escritor precisa sentir-se instigado, desconfortável, “infeliz” para se motivar a dar vazão à sua criatividade.

Não sei se concordo plenamente com esse autor, mas sei que, falando de si mesmo, ele pode achar e dizer o que quiser, afinal ele é dono do seu próprio discurso, ainda que Foulcault e Bakhtin com ele talvez não concordassem.

Sendo eu também um profissional das letras, finalizo com este poema:

imerso neste imenso mar de gente

às vezes penso que meu verso onipotente

pode quebrar a corrente de tanta falta de senso

então paro, penso e percebo

que o feito máximo do meu verso

não passa de um efeito placebo

DOGMAS

A crença é uma espécie de pré-certeza. É uma expectativa de verdade, uma espera (mais de…) de confirmação ou (do que de…) refutação de uma suspeita. Confirmada ou refutada, deixa de ser crença e se torna certeza. Nesse aspecto, a crença se relaciona com o dogma, este nem sempre passível/possível de ser retirado dessa categoria cognitiva. Como costumo dizer, não há problema nenhum em tomar o dogma em sua própria dimensão; o problema só surge quando se esquece disso e se toma o dogma como verdade. E isso, infelizmente, ocorre, e muito.

O dogma, como formulação do pensamento, é passível de permear toda e qualquer área do conhecimento, humano. Vírgula em conhecimento, humano, ante a concessão de que pode/possa haver algum (conhecimento) transcendente. De novo a expressão da certeza/incerteza pela justaposição do indicativo, pode, ao subjuntivo, possa. De onde também a legitimidade dos paradoxos, e este é metatextual: não existe certeza nenhuma.

Mas voltando à questão do dogma, este, ao exprimir crenças, recorre à linguagem alegórica, simbólica, do consenso ou de um consenso. Acima da crença está a fé, uma certeza inabalável, inquebrantável, pelo menos a princípio. Sendo de natureza emocional e, por conseguinte, irracional, é despertada por aquela via, i.e., via emocional, irracional.

Mas saindo dessa sisudez textual, e recorrendo a minha proverbial pareidolia verbal, vejo em dogma cão, dog, que, em inglês, invertido, resulta em god, i.e., deus, a nos lembrarmos da designação de cão ao… peta. E essa oposição maniqueísta bem x mal, luz x trevas, espírito x matéria não parece de fácil (dis)solução, razão por que tem sido objeto do interesse ambigramistas, palindromistas, artistas e uns tantos …istas, como se pode verificar pelos objetos verbi-visuais a seguir.

beleza não põe mesa

O poetinha que me perdoe, mas beleza não é fundamental. Pelo menos não aquela coisa que coisifica a mulher e que não se refere, propriamente, a beleza, mas a desejo. Nada contra o desejo, pelo menos não quando este não conspurca a corporeidade homenina, sendo-me permitido o neologismo. Mas se a beleza é a promessa de paraíso, o desejo quase nunca (se alguma vez) o é. Entretanto, quando Vinícius disse “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, isso disse sem estar concorde aos perceptos Morais, sobrenome que ele próprio regrafara Moraes, a querer distanciar-se do adjetivo atinente a moralidade. Mas já dizia o ditado latino: ridendo castigat mores, que o brasílico humorista disse significar “rindo castiga-se mais”, subvertendo o significado: “com o riso corrigem-se os costumes”. Ao que tudo indica, o venéreo poeta carioca levou à risca sua formulação, tendo contraído os sagrados laços do matrimônio não uma, nem duas… nem nove, nem dez, mas onze vezes, o que autoriza perguntar se o poético letrista estava a cada nova núpcia apenas confirmando isso e o seu já proverbial não eterno, mas “infinito enquanto dure”.

Seja como for, ou seja como seja, nem sempre se consegue ultrapassar os percalços que enfrenta quem tem na alma o anseio de estabelecer a ponte entre o lirismo puro da palavra pura e a dura inexorabilidade do desgaste conubial nem sempre inevitável, e que põe à prova a católica injunção matrimonial até que a morte os separe. O proverbial “falar é fácil”, é mesmo. Falar besteira, também, e fico pensando que as asneiras que todos dizemos não o fazemos por pura pressa; alguns de nós, pelo menos, já que é de supor que, a menos que se trate de texto humorístico, ninguém gosta de proferir estultices. Já disse em outra matéria que a pressa da expressão muita vez atropela o inefável. E já disse Pessoa: o poeta é um fingidor // finge tão completamente // que chega a fingir que é dor // a dor que deveras sente.

Eu, por mim, em minha mesmice, se já disse asnice, sentisse, sinto muito.

algemas na alma

Muito se terá escrito, enquanto viva alguma alma, sobre o alimento que lhe dá vida, something stupid…, tão fácil e tão difícil, tão abundante e tão raro, tão pleno e tão restrito, tão-tão e tão-tão, por que somos tão tantãs. Um substantivo que não deveria ser masculino, porque parece que a porção feminina do universo mais se coaduna com ele, isto é, ela. Na verdade, uma torrente/corrente/riacho de energia que OSHO diz: a mesma energia que, no plano físico, é sexo, no humano é romance e no espiritual é prece. A lição que todos viemos aprender, mas que nossa miserabilidade humana, advinda do desamparo de que somos todos herdeiros, não parecemos aprender.

Fico pensando que, se é verdade que você antes de nascer fez um acordo com o universo e, portanto, como dizem, um contrato com seus pais, e, por conseguinte, contrata um kit de experiências de que precisa para crescer, isso tudo de acordo com a chamada Lei do Carma, fico pensando, repito, se toda criança já não estaria, ab ovo, submetida ao extremo rigor de um suposto controle do acaso. Não sei a que ponto se aplica a acalentada expressão que diz “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Creio que muitos de nós, talvez a maioria, gostaríamos de crer nisso. E provavelmente a maioria crê. Entretanto, parafraseando o cantor que disse “esperar não é saber”, propomos se troque esperar por crer, em parcial refutação ao Mito de Pandora, que, me parece, significa “todos” (pan) “dons” (dora). Para quem não sabe, esse mito grego conta que Pandora, ao abrir a caixa que continha todos os males, espalhou-os todos pelo mundo; mas restou, no fundo, a alvissareira Esperança.

Mas se amor é, antes de mais nada (encontro de…) alma, a licença poética me permite a equação: amor + alma = almor. Confesso que não me agrada muito esse artefato trocadilhesco. Mas foi o que se pôde conseguir para o momento. Essa deselegância vocabular talvez seja compensada com esta outra: amor = algemas na alma; = almas gêmeas = almas na alma; ALgeMAS. Então, se eu amo você, não mais eu nem você, somos um voceu, voz do céu. Finalizando, finalmente, este final: algemas na alma, gemas na alma, gêmeas na alma, gême-as na alma. Calma, alma, almei.

mulher caminho melhor

Com mulher você nunca tem razão; principalmente quando tem: aí é que não tem mesmo! Isso porque a mulher, diria Shakespeare, tem razões que a própria razão desconhece. A estonteante inteligência emocional isso explica. Quer dizer, pensar com o coração, não sentir com a cabeça. E o coração feminino tudo conhece; e a cabeça lhes dá a extraordinária capacidade de pensar cinquenta coisas ao mesmo tempo. Só que de modo coordenado, não subordinado. Diz o pessoal da área que isso se deve ao fato de que a mulher, quando pensa, usa os dois hemisférios cerebrais, enquanto o pobre do hohem só consegue usar um. Assim, a mulher consegue enxergar coisas que o homem só vislumbra ao longe, estabelece ilações que estão bem além (ou aquém…?) da capacidade masculina. E isso lhes dá uma grande virtude: pensam demais; e também um grande defeito: pensam demais. Eu hoje tenho dúvida se a questão aí da virtude ou defeito é mesmo uma questão de ocasião, quer dizer, pensar muito quando deve e pensar muito quando não deve. E o homem fica meio perdido quando a mulher o interroga, com certo olhar de inquisição, e lhe dispara a fatal pergunta: o que você quis dizer com isso?!

Essa capacidade de verdadeira pensação dá à mulher a capacidade de quase-ação, quer dizer, a mulher melhoriza as coisas. Explicando: melhorizar é um ensaio para melhorar,  ensaio que fica ali nos bastidores da intenção mas nem sempre consegue ser convertido em espetáculo. Conseguindo pensar em cinquenta coisas ao mesmo tempo, consegue ela estabelecer ilações e relações que estão aquém (ou além…?) da tênue obviedade masculina. Às vezes muito alequém ou aquelém, além-mar ou aquém-lar. E com isso consegue ela provar que o homem é uma necessidade desnecessária. De suas duas únicas funções até há pouco havidas, só resta uma, e não por muito tempo: gerar prole. A outra já era, e desnecessário é enunciá-la, já que o mercado de trabalho está começando a atentar para as suas competências até então camufladas pela assoberbante cosmovisão da prevalente falocracia, em que o arrogante governo do falo cada vez mais cede lugar ao elegante governo da fala.

E então eu olho para mim, e tremo, vendo meu vulto que desaparece na extrema curva do caminho extremo (obrigado Olavo).

tecnoética

Não é de hoje que se questiona a relação entre o desenvolvimento tecnológico e as implicações éticas aí implícitas. Sabe-se, também, que o desenvolvimento moral do homem não acompanha o frenético ritmo dos avanços tecnológicos do próprio homem. E seria muito fácil passar ao largo dessas questões na suposição de que se trata de avaliações que cabem ao futuro resolver. Mas não.

Outro dia, em sala de aula, o assunto em pauta eram os veículos autônomos, quer dizer, dos automóveis comandados pela chamada Inteligência Artificial, termo inadequado e que está sendo substituído por outro não tão inadequado, qual seja, Computação Cognitiva. A questão que se propunha era o “arbítrio” do automóvel na tomada de decisão entre escolher atropelar este ou aquele cidadão, decisão essa que estaria subordinada a qual critério. E ocorreu-nos que o tal arbítrio não seria (não será…?) tão arbitrário, desde que, em certo sentido, ele já acontece: avaliações de mérito e demérito, culpabilidade e inocência, classe social, formação e escolaridade, poder aquisitivo ou de consumo, e questões que felizmente estão sendo superadas: sexo, gênero, raça, etnia, crenças religiosas e outras que tais.

O que nos parece, com certo calafrio, é que os milhões de câmeras onipresentes e a inteligência artificial identificarão e decidirão, levando em consideração critérios que a empoderada hipocrisia vigente finge não existirem. Lembro aí de uns tantos sequestros de pessoas cujo prestígio, poder econômico, empoderamento midiático decorrentes aí de uns tantos fatores algo escassos no geral da população, sequestros esses que foram rapidamente resolvidos, atendidas exigências (ia dizer reivindicações) dos sequestradores.

Como se diz, quem viver verá, e imagino que muito do que hoje se considera certo amanhã errado considerado será, a imitar o modus dicendi do impagável Yoda.