A (des)autoria do poema

Outro dia estava lendo um poema do Delores Pires. Belo em sua habitual singeleza, não obstante (e talvez nem por isso mesmo) a forma do soneto. Enquanto lia era tomado pelo límpido encanto de despretensiosos versos. Poetando, grato encanto do grácil canto. Eis o poema:

Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola…

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente…
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…

Lido o texto, fiquei alguns segundos assimilando, metabolizando, curtindo, mesmo. Reli. Terminada a releitura, li a referência embaixo e abaixo:

(QUINTANA, Mario. A rua dos cataventos. “In” Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 90) – Imagens: Google.

No primeiríssimo instante levei um choque, que, antes mesmo de se tornar desagradável, nem sequer me permitiu um naco de desagradabilidade. Era do Quintana…!, meu amado Mário… Entre mim e os poetas, fiqueimos entrefelizes, pelo menos de minha parte. E me lembrei que, no poema, você precisa ser poeta junto com o poeta para bem ler o poema seu/dele. Tratava-se, mesmo, da questão da (des)autoria do poema, que uma vez me ocorrera quando uma colega das letras e palavras me pediu lhe corroborasse a afirmação de que o poeta Vinícius de Moraes, sendo carioca, deveria ser lido com o característico sotaque, ao que lhe respondi: o poeta deve ser lido com o sotaque do próprio leitor.

tijolos de espuma

palavras

tijolos de espuma

haverá alguma que a minha vida resuma?

Quem viver verá: haverá aquela uma

que quando desta embora eu vá

não deixe amarela a minha vida ora de aquarela…

atitude

atitude é tudo o que resta

quando nada mais resta aquém de tudo o que se esfuma

na única razão de não ter razão nenhuma

Falência da falas

entre a corte e o corte

a vale e o vale

o amor e a morte

– à mídia comídia de erros

nada mais resta

a não ser

ser honesta…

programação

p

– Não seja galinha como a sua mãe – ameaçava sempre a faminta voz do pai à garotinha, hoje de programa.

amorte ama

hoje só um poemeu

aprendi com a vida ávida

se amorte ama

ele/ela se espalha

até pelas coisas inamáveis

pirar para (não)(res)pirar

A questão que se impõe é, algo giriátrica e geriátrica, “qual é a pira”? Muitas são; poucas, sãs.

Já tive oportunidade de escrever (ia dizer dizer) que o poeta sofre de pareidolia verbal, i.e., consegue enxergar (na realidade, ver) palavras embaixo das palavras, o famoso “mot sur mot”. Assim, consigo ler em respirar “res-pirar”, de onde uma latinização talvez legitimasse entendermos “res = coisa”, de onde respirar poderia ser lido como “pirar com as coisas”.

Bem, estando ou não estando bem as coisas como bem estão (ao digitar, entreli: “bestão”), há que nos rendermos à inexorabilidade das coisas, e essa repetição do substantivo coisas pretende presentificar a coisificação a que estamos todos sujeitos e somos (quase) todos sujeitantes.

Mas a ideia deste artigo ocorreu quando um amigo com quem entretenho diárias tertúlias, algo perplexo com algo, exclamou em tom de desabafo: regras para respirar. E agora mesmo ajustei o título, grafando-o como o fiz acima, pelo simples acréscimo do advérbio de negação hifenizado e entre parênteses (não-).

A questão é a cegueira que nos querem impor sobre a cegueira que se nos impõe a condição de humanas criaturas. Superável ou não, tratar-se-ia de uma condição inata? Em nosso auxílio vem Houaiss que, no adjetivo inato, registra:

Rubrica: filosofia. no cartesianismo, que se origina da mente, sem qualquer mescla com a experiência sensível nem influência da imaginação criadora (diz-se de ideia);

Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: filosofia. na filosofia moderna, que tem sua origem em ou deriva de ou é inerente à mente ou à constituição do intelecto, em lugar de ser adquirido com a experiência.

Finalizando, o ponto e vírgula último e o ponto final derradeiro tivemos de acrescentá-los, a seguir alguma regra que alguém já terá formulado algures e alhures.

poeta: coautor de si mesmo

Poeta, coautor de si mesmo

Uma amiga minha, poeta porém que nunca fez formalmente um poema, vem a confirmar minha tese da coautoria do poema e de que o poeta, também ele, é coautor de si mesmo. Certa feita fiz um poema assim:

de dentro de minhas entranhas

tua estranha imagem extrai tamanho encanto

que meus olhos

repousados

respondem sim ao próprio espanto

Quando lhe mostrei o feito, minha amiga ficou tão sensibilizada, que, sem eu saber, levou o poema para a nossa turma de amigos, em maioria professores da área. Sob a orientação da missivista, teriam se posto a conjecturar sobre quem seria o autor do objeto poético em questão. Entre os conjecturados poetas, contou-me ela que a amiga tal disse este, o amigo aquele, aquele, e entre estes e estas e aqueles e aquelas constaram nomes como (suspiro…!) Dylan Tomas.

Senti-me, mesmo, lisonjeado ao saber do julgamento a que eu fora submetido sem o saber então, e descobri, mais tarde, que a amiga em referência chegou, mesmo, a manuscritar a prima obra e a colocá-la sobre o espelho de sua penteadeira.

Passaram-se alguns meses, e por algum movimento do irrequieto inconsciente me veio o impulso de rever/revisar/reformar o tal poema, e com a aquiescência do consciente assim ficou/fiquei:

de dentro de minhas entranhas

tua estranha imagem extrai tamanho encanto

que meus olhos

extasiados

exclamam sim ao próprio

espanto

Em que troquei o repousados/respondem do primeiro por extasiados/exclamam do segundo. E o excesso de “ee” veio, agora, ser confirmado pelo título, até então inexistente, mas que depois de então me ocorria, qual seja: exagero. Minhas estâncias estéticas ficaram então entusiasmadas, e comuniquei o “aperfeiçoamento” do poema à amiga poeta/poetisa. Ela não aceitou nem aceita a reformatação. Segundo ela, o poema é, mesmo, o primeiro; primeiro eu, o poema é, mesmo, o segundo, mesmo (e talvez por isso mesmo…) com toda a hiperestesia que se me lhe impus.

Finalizando por ora, finalizo com resposta que dei a uma amiga carioca que me pediu que confirmasse sua afirmativa de que o poeta carioca Vinícius de Moraes deveria ser lido com sotaque carioca. Disse-lhe, pois: o poema tem de ser lido com o sotaque do leitor!

Dito e feito, dito efeito.